quarta-feira, janeiro 14, 2009

Está tudo iluminado

Não consigo traduzir por palavras a enorme felicidade que sinto deste livro me ter vindo parar às mãos, nem tão pouco a proporcional tristeza de o ter acabado de ler ontem. A tristeza de acabar um livro, uma das 613 tristezas de Brod, uma das muitas que me cabem, já que foi a obra de arte que mais me custou a abandonar na minha vida, tanto que andarei sempre com as suas lembranças. Há livros que devoramos, pois prendem, viciam. Há livros que lemos com o prazer das aventuras. Há livros que nos custam ler, mas que no fim valem a pena. Há livros que naquela altura não conseguimos. Há livros que causam repulsa. E depois de todos estes, há livros que carregam o peso da vida. Confesso que foi o primeiro que li deste tipo, e li-o numa altura em que descobrira obras maravilhosas, mas começo por explicar que este é o tipo de livro que quero que todos os meus amigos conheçam, da mesma maneira que vou querer sempre que os amigos conheçam a mulher da minha vida. E porquê? Posso tentar explicar, mas o amor não se explica, só o fim do amor. Como diz na contracapa do livro este é um romance sobre a busca de pessoas e lugares que já não existem, e tudo se encontra lá, iluminado. Tudo o que é humano, o terror da guerra, o medo do amor, a angústia da dor, a folia da paixão, a explosão do sexo, a atrocidade da culpa, a chama da esperança, o refúgio da comédia, tudo se confunde com as suas personagens, com as escolhas de cada uma. E elas crescem, e nós que a ler somos levados para lá, percebemos que ninguém muda, nenhum homem ou mulher de um dia para a noite muda, isso já é do domínio do sobrenatural, pois o natural é a evolução, não a mudança. Nós somos ondas que nascem na vastidão do oceano, depois crescem, minguam, voltam a crescer, estancam, crescem mais um pouco, abeiram-se da terra e estendem-se pela areia, e descem pelos espaços que há entre os grãos de areia, e tudo isto tem uma lógica sequencial, e nós não podemos sair dessa lógica sequencial, chamem-lhe fado, destino, vida, condição, chamem-lhe todos os nomes, porque nomeá-la já todos tentaram, os nossos pais e avós, e os pais e os avós deles, e todos os outros que estão por vir também serão a nossa continuidade na procura de respostas. Já deixei um fragmento deste romance no último post de 2008, deixarei mais a partir de hoje. Fica o convite, visitem Trachimbrod, a aldeia em questão, também conhecida por Sofiowka nalguns mapas antigos da Ucrânia, depois apaguem as luzes do mundo, para que o medo tudo possa iluminar.
Está tudo iluminado de Jonathan Safran Foer, 2002, Temas & Debates

3 comentários:

hothotheart disse...

parece ser bem giro

The queen disse...

HUmmm, Depois desta critica estou seriamente a pensar ler... (:

gambozino disse...

nem é bem uma crítica rainha, é uma rendição.