segunda-feira, março 30, 2009

regresso ao meu herbário

Não é que goste muito de andar para trás nas coisas que escrevo, mas há sentimentos que se repetem ao longo da vida, intactos, mesmo como os tivémos. Para mim um dos que sempre se repete é o da necessidade (vontade não, necessidade) de viajar. Desde pequeno que sinto esta urgência, de deslocação e implantação noutros locais, esse é um dos motivos pelos quais julgo não ter "uma terra". Eu nasci em Lisboa, sempre vivi em Lisboa tirando os sete meses em que a minha casa foi Florença, mas eu não sou nem de Lisboa nem de Florença. Posso ser mais de Venade, que é a terra do meu avô, do que de Lisboa. Posso até ser mais do Farol, que nem sequer é uma terra, é um ilhéu. Enfim, isto tudo para dizer que de vez em quando preciso de viajar muito, não estar parado. Como se me desse uma recaída dessa doença, uma ressaca. Numa das que me deu há uns anos escrevi um textinho sobre a flor que mais viaja, hoje decidi trazê-lo para aqui da minha casa antiga. Não resisti a fazer umas imperceptíveis alterações.
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Um herbário não é coisa fácil de se fazer, pelo menos era isso que me diziam quando num dos verões da minha vida coloquei a mim mesmo esse objectivo, precisava de saber das plantas, das árvores, das flores, queria reconhecer todas as plantas pelas folhas e todas as folhas pela cor, textura, aroma e mesmo sabor. Como em Lisboa não há assim tantos jardins, esperei pelas férias na quinta, que chegavam sempre no mês de Agosto. Era uma viagem longa e aborrecida, custava-me muito estar aquele tempo todo calado e sem beliscar as bochechas do meu irmão, que começava logo a berrar. Houve um Natal em que recebi um walkman, o que juntamente com as cassetes do Rui Veloso tornou as viagens muito mais curtinhas, é que os meus pais até ouviam música, mas nessa altura essas músicas estavam longe de me compreender. Parávamos sempre para almoçar num restaurante muito grande que parecia um palácio, chamava-se "O Manjar do Marquês", tinha uma fonte daquelas com água e tudo sempre a correr, dizia-se por aquelas paragens que há muitos anos o Marquês de Pombal ia lá comer torresmos todos os dias e portanto era mesmo isso que eu pedia sempre, torresmos. A minha parte preferida de toda a viagem era quando chegávamos a Caminha, a vila é bonita mas o que realmente me fascinava eram os rios Minho e Coura, tudo isto porque o meu avô dizia-me sempre que o rio que passa na nossa aldeia que se chama Rio Tinto é filho do Rio Coura que por sua vez é filho do Rio Minho, o que fazia com que o rio Tinto fosse neto do Rio Minho, o seu avô, por isso sempre que olhava para o Rio Minho lembrava-me do meu avô e intrigava-me muito não saber nunca quem era a mãe e a avó, talvez a chuva e a trovoada... Ao chegar à nossa aldeia passávamos sempre pela igreja, pela casa do Zé do Capitão que era o senhor que tratava dos papéis de emigração dos animais da quinta e pelas casinhas dos três porquinhos, uma de palha, outra de madeira e a outra de tijolo, acenávamos às pessoas que se cruzavam a pé ou nos carros de vacas e chegávamos finalmente à nossa quinta onde nos esperavam os avós e a Avó Lina, que não era mesmo nossa avó, mas como se fosse. Voltando ao herbário, para a tarefa de me ajudar a criá-lo foi designada precisamente a Avó Lina, que logo pegou em mim e me levou a passear, levava na minha mochila um caderno, um lápis, uma borracha e um afia-lápis, um frasquinho para guardar amoras (que não eram para o herbário mas para a nossa barriga) e a minha espada de Zorro para enfrentar os monstros que eventualmente aparecessem. A Avó Lina percebia muito de plantas e árvores, sabia todos os nomes de cor e nunca vacilava quando tinha que subir a uma árvore para tirar uma folha daquelas mais bonitas lá de cima. Num ápice criei um herbário com todas as folhas de árvores e plantas das redondezas, as que eu mais gostava eram as folhas recortadas dos carvalhos e as que achava mais valiosas eram as folhas pontiagudas e picantes do azevinho. A única flor que eu não consegui coleccionar nunca, que se desfazia sempre que a colocava no meu caderno era o dente-de-leão, tinha pena que nunca encontrasse uma mais resistente, uma cujas sementes não fugissem com o vento, que não gostasse tanto de viajar, mas quando cresci percebi que eram assim essas flores e não havia nada a fazer, a vida delas depois de crescerem e se formarem é essa mesmo, fugir com o vento, viajar na boleia da brisa e no seu sopro encontrar um sitío novo para se plantar. Quando entendi isso peguei no meu herbário e escrevi numa página: dente-de-leão, desenhei o melhor que pude a sua flor e acrescentei por baixo: esta flor fugiu com o vento porque gosta muito de viajar. Abril 2005

2 comentários:

CG disse...

Já morei em tantos sítios diferentes que quando me perguntam de onde sou nunca sei muito bem o que responder. E nem gosto de ficar muito tempo no mesmo sitio. Também sou assim, gosto é de viajar ;)
Big Kisses

Telemaquia-org. disse...

[...]
Bastiana estava rubra das risadas.
O doutor falou energicamente para manter a moral.
- Calem a boca; preciso de silêncio para poder trabalhar.
Chico do Adeus estava ali em sua frente, humilde e esquecido do fato.
- Então o senhor não sente nada?
- Sinto, sim siô, desde minino.
- Diga.
- Vontade de viajá.
- Isso não é doença.
- Num é pruquê o siô nunca sintiu...
[...]

Rosinha, minha canoa ;)