quarta-feira, abril 01, 2009

lembro-me agora

ao pai Simão
Lembro-me agora da primeira paixão que tive por uma mulher mais velha, digo primeira porque já foram algumas, embora poucas tenham sido tão grandes como esta. Tudo o que é primeiro perdura na memória, estende-se ao comprido, acomoda-se e vai ficando: o primeiro beijo, a primeira vez (gosto mesmo da simplicidade desta expressão), o primeiro concerto, a primeira ida ao cinema, o primeiro livro e o primeiro amor. São sentimentos pioneiros em nós, que nos descobrem e depois exploram, tal e qual a paixão por essa mulher me fez descobrir e explorar novas coisas em mim. Naquele longínquo ano dos treze, os meus pais quiseram que eu aprendesse a sério inglês, como tal inscreveram-me numa escola dessas particulares, em que se aprende com professores ingleses nativos. Ela era a professora, chamava-se C., era ruiva e altiva como aquela chama mais alta de uma fogueira, que sempre ameaça tocar as folhas mais baixas das árvores em redor, era clara de pele como nuvens de verão, tinha um nariz aquilino que parecia forjado ainda mais acima do monte Olimpo e quando falava português com a sua tosca pronúncia, a falha por baixo dos meus pés provocava terramotos em mim, devastação em mim. Por hábito na aula tomávamos os nossos lugares sempre em U. C. ficava na abertura do U, para que pudesse avistar toda a turma, que não era muito grande nem muito pequena. Falava sempre com um grande à-vontade e era sensualíssima nos movimentos de mãos, embora eu só saiba isso agora. Nos dias de calor desprendia o botão cimeiro da camisa, e eu sonhava sem saber. Tinha treze anos, não percebia donde vinha aquele fascínio, só sei que quinze minutos antes da aula começar eu estava à porta, e que quando não chegava a tempo de a ver entrar ficava fulo. Lembro-me agora do dia em que soube, em que descobri que era isso, uma paixão. A aula estava a decorrer normalmente, era uma lição sobre os idiomatismos do inglês, aquelas expressões que têm um significado particular, como: raining cats and dogs ou a penny for your thoughts. A tarefa era lembrarmo-nos de frases deste tipo em inglês ou português que pudessem ser traduzidas, e obviamente que eu, na inconsciência da minha paixão, me lembrei se seria possível dizer em inglês eu amo-te do fundo do meu coração. Não sabendo ainda nada sobre os caminhos da atracção perguntei a C. da forma mais inocente que hoje posso imaginar Excuse me C., can I say I love you from the bottom of my heart? Senti as pessoas um pouco espantadas com a minha sincera questão, mas fiquei à espera da resposta com ar de quem confia que a sabe, apenas está na dúvida. E se não sabia passei a saber, quando C. respondeu com o ar mais amoroso que até hoje assisti Oh Simon, you can say whatever you want. Ainda hoje penso nela, já regressei à escola e falei com os funcionários e professores para saber se alguém sabe do seu rasto, até agora nada. Sei que vou amar a ideia desta mulher até ao fim dos meus dias, como sei que posso já ter-me cruzado com ela por esses caminhos. Amar uma ideia... não será o melhor amor possível, já que é tudo o que a fantasia quer e nada do que a tristeza quer.

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