terça-feira, agosto 11, 2009

o Rocinante (de ferro)

Hoje o meu maninho foi de inter rail. Recebi agora mesmo uma mensagem dele a dizer: "já partimos! até já!". Não quis meter-me muito na preparação dele, dei-lhe alguns conselhos para as longas viagens de comboio, para tentar evitar que ele passe os mesmos maus momentos que passei; ofereci-lhe um mapa ferroviário da Europa para ele marcar o percurso; e falei sobre os sítios onde estive que coincidem com a viagem dele, sobretudo Dubrovnik e sua brisa marítima, Brasov e suas florestas densas e Budapeste em toda a sua imponência.

Foi mais ou menos há cinco anos certinhos que eu vivi a mesma experiência. Da mesma maneira que ele, tinha acabado de chegar de um acampamento regional, o último do outro lado. O dia em que parti foi-me muito especial, ainda o é. Foi nesse dia que pela primeira vez senti uma palavra que até então me saía a muito custo, pátria. Esta pátria que sinto ser a verdade de quem sou, com todas as misturas que sou, de todos os lados que são, que se reúnem não num lugar físico dentro de fronteiras, mas que viajam connosco para onde vamos. Uma pátria que também é uma mátria, que se enraíza na família, nos que nos são, que cresce na indepêndencia e liberdade que nos dotou de um sentido pessoal e que floresce numa partida, que será todas as partidas.

Lembro-me que o meu pai me deu boleia para Santa Apolónia e de eu ir a olhar para Lisboa, lembro-me de estar a ouvir os poemas do Pessoa cantados em italiano, lembro-me que tudo parecia tão bonito, transbordante. Lembro-me de fazer força para não chorar.
Lembro-me do comboio a partir devagar. Os comboios partem devagar para que nos possamos despedir do que fica.
Lembro-me do meu último almoço antes da partida, foi com o meu pai no Verde Gaio.

O meu irmão vai-se lembrar do último almoço antes da partida, foi comigo, uma moamba de galinha na Rua de Entrecampos.

Boa viagem no Rocinante de ferro!


1 comentário:

sara disse...

eu cá lembro-me da bica à chegada : )